Minhas 10 regras para você escrever sua própria série de livros

Quando lancei a trilogia OXZ, troquei ideia com gente de diferentes vibes, jeitões, idades… Mas em toda conversa, uma pergunta se repetia:

“Como eu faço para criar uma história?”

 

Antes da resposta, alguns links que podem te interessar:

Quer ganhar a versão e-book de OXZ e o Clã? Escorrega o cursor aqui.

Quer comprar toda a trilogia e receber em casa, autografada? Clica aqui. 

Quer conversar? Fala ae.

REGRA 1: derrame sua alma no teclado.

Prestenção!

Se quer vender livros, abra um e-commerce. Se quer ser famoso, seja Youtuber. Escrever é outra coisa. Para mim, foi sempre sobre contar minhas histórias. A maioria das pessoas admira textos que só existem porque o escritor foi além da narrativa e, de algum modo, revelou sua alma ali.

Fernando Pessoa, José Saramago, Jane Austen, Moacyr Scliar, James Joyce, Guimarães Rosa, JK Rowling, Quentin Tarantino, Bob Dylan… E tantos autores que, a seu modo, criaram algo impossível de ser copiado. Algo forte e pessoal. Você jamais teria conhecido as histórias que eles contaram se eles não tivessem nascido. Queremos histórias de verdade. E apenas sua voz original, subjetiva e particular é capaz de contar o que ninguém mais poderia. Leitores querem alma.

REGRA 2: torne-se quem você gostaria de ler.

 

Embora a discussão técnica muitas vezes norteie a formação de profissionais da escrita, eu acho que a formação humana é, em última análise, o que diferencia escritores de Escritores. Por isso, dedique-se a desenvolver sua subjetividade. Pense sobre seus valores. Avalie-se. No que você acredita? Qual a sua causa? Por que você existe? Por que eu deveria me interessar por você? Não estou falando em ganhar a faixa de Miss Simpatia. Não, falo em parar de ver a vida no Instagram e examinar suas próprias verdades. Isso fará de você alguém autêntico, com ideias mais interessantes.

No fim, toda essa “interessância” vai aparecer no seu texto.

REGRA 3: seja cruel.

Nossa existência é ridícula. A minha. A sua. Somos frágeis e limitados. Nossos personagens precisam refletir quem somos. Precisam errar. Precisam dizer coisas das quais se arrependam dois parágrafos adiante. Precisam comer doces antes de dormir, ter preguiça, serem egoístas de vez em quando. Como escritor, meu trabalho é criar um ambiente onde meus personagens se sintam seguros para serem ridículos. E, em seguida, trai-los. Eles precisam perder o chão e morrer de medo da próxima página.

Personagens fortes são espelhos onde os leitores admiram sua própria humanidade. Faça-os falhar. Se for preciso, faça-os sofrer.

REGRA 4: alugue (só) um pedaço do seu cérebro.

Levei 8 anos para concluir a trilogia OXZ. Se contar o tempo de concepção, antes de escrever, podemos chegar a 10. É claro, fiz outras coisas no caminho. Por exemplo, abri empresas, viajei, fiz publicidade, adotei um cachorro, casei, escrevi para TV, criei sites, fiz poemas, me mudei uma meia dúzia de vezes… andei bem ocupado. Entre um rascunho e outro, o tempo foi passando.

Mas, uma parte do meu cérebro continuava a fazer a história andar.

Algo parecido vai acontecer com você. As provas, o trabalho, uma torneira quebrada para consertar, a grama para cortar… Escrever só é urgente para quem escreve. O mundo irá competir com suas urgências narrativas. E, muitas vezes, vai vencer. Minha dica é: engane o mundo. Finja que está atendendo todas essas demandas, mas secretamente, reserve um pedaço da sua cabeça para ir cozinhando suas cenas, dourando seus diálogos, temperando seus personagens… Quando o mundo estiver dormindo, ponha tudo isso no texto.

 

REGRA 4: imagine uma história só para você.

Todo escritor dá a mesma dica: leia muito. Eu, na contramão, digo: pense muito. E imagine com método.

Como o tempo para escrita é limitado, sou a favor de uma preparação massiva e ordenada. O que significa isso? Que você deve desenvolver métodos de imaginação contínua (é provável, que esta seja uma das etapas mais divertidas no seu processo). Permita-se construir sua história em outra plataforma. Eu, por exemplo, parafusei na parede de casa uma grande chapa de alumínio. Lá, coordeno anotações de toda história que quero contar. Às vezes parágrafos inteiros vão para parede. Noutras, descrições aleatórias e inúteis sobre os personagens. Abuse de ilustrações a mão livre (a mais inspiradora das técnicas), registre ambições e intenções dos personagens. Nesta etapa, de modo algum você está preocupado com o texto do seu livro. Não. Aqui, você quer, contar a história para você mesmo. Pense como seria a história da mãe do seu protagonista (e não use isso no livro). E se um coadjuvante escrevesse um poema, como seria? Desenhe uma batalha que não vai ser descrita. Divirta-se com esta versão exclusiva da sua própria história.

Crie seu jeito de imaginar. Registre. Organize. Comece de novo. E, no meio dessa coisa toda, escreva.

 

REGRA 5: entenda sua língua.

Escrever é, antes de tudo, um exercício de linguagem. Portanto, o português é tua ferramenta. Deve ser uma obstinação e, ao mesmo tempo, uma brincadeira. Oscar Schmidt, o maior cestinha da história, conta que, durante o início do treinamento, não largava a bola para nada. Literalmente, ele dormia (!!!) agarrado na bola. Pilotos de Fórmula 1 sabem montar os próprios carros. Paraquedistas revisam a própria mochila. Essa intimidade com o seu objeto de trabalho é, sem dúvidas, uma virtude que vai fazer diferença na escrita. Inclusive ao subverter regras.

Conheça gramática e ortografia, estude poesia, brinque com a pontuação, revise seus próprios textos (!)… Se é você quem vai saltar, vai confiar em outra pessoa para dobrar seu paraquedas?

 

 

REGRA 6: troque de olhos com o seu leitor.

Escrever é fazer ver.

Lembro claramente de um garoto (12, 13 anos) me abordando e dizendo: “Estou adorando. E estou ansioso para ver o Xenon”. Aquela frase me marcou. Ver. Ele usou essa palavra com força, olhando em meus olhos, como se, por mágica, meus personagens fossem imagens na cabeça dele. Isso me faz pensar: escrever é emprestar os olhos para o leitor. Por isso, você precisa se colocar no lugar do seu público.

Seja pessoal. Seja único. Mas não seja egoísta. Sim, parece contraditório. O que estou dizendo é que você precisa pegar seu leitor pela mão e carregá-lo pela sua visão de mundo. É um universo maluco. É um labirinto escuro. É a sua cabeça (!). Não vai ser fácil para as pessoas caminharem por aí. Ajude-os.

Pense nos fotógrafos que você admira (Henri Cartier-Bresson, Sebastião Salgado, Annie Leibovitz…). O desafio de quem faz arte com uma câmera não é registrar o que vê (isso a máquina faz). O desafio é VER. Grandes fotógrafos veem o que ninguém vê. E conseguem mostrar para gente.

Esforce-se mais para mostrar, com suas palavras, sua visão de mundo.

PAUSA NAS REGRAS. PREENCHA E RECEBA MEU LIVRO NO SEU E-MAIL:

REGRA 7: relaxe

Viver é preciso. Escrever é consequência. O que acontece com a gente durante o processo de escrita enriquece nosso texto, engorda nossas ideias e leva nossa história por caminhos impossíveis de serem previstos. Portanto, permita-se esquecer do seu texto. Deixe seu grande projeto literário de lado. A história que você está escrevendo não é mais importante do que a história que você está vivendo. Se você estiver fazendo isso direito, uma será consequência da outra.

Respire.

Vai rolar.

 

REGRA 8: não relaxe
(Sim, é o oposto da regra 7. Conviva com isso.)

Agora que você já relaxou, volte ao trabalho. Seu projeto literário só vai acontecer se você tiver um deadline. Leve uma data a sério.

Admito: sou o cara errado para falar sobre isso. Talvez você conheça essa história: meu primeiro livro me pegou desprevenido. A coisa toda aconteceu sem que eu tivesse muito controle. Eu postei, despretensiosamente, o texto em uma comunidade do extinto Orkut. Minha intenção era ouvir feedbacks, saber se a história fazia sentido… Eu não tinha qualquer experiência, não sabia o que esperar. O que aconteceu depois? Gente aleatória postando o PDF em outras comunidades. O livro ganhou as redes e foi parar no e-mail do editor Luís Vasconcelos, que me convidou: “Vamos publicar?”

Topei.

A ideia sempre foi compor uma trilogia. O primeiro livro vendeu superbem. Era minha função escrever os outros dois. Mas, envolvido com publicidade e tudo mais, fui deixando os livros para depois. A editora optou por não republicar (não queriam deixar seus leitores a esmo). E eu… relaxei demais.

 

Somente depois de ter uma data, levei a sério o processo de escrita.

E que data seria essa?

O nascimento da minha primeira filha. Estávamos grávidos. E eu sabia: se não concluísse a série antes da Sarah vir ao mundo, jamais o faria. Eu tinha que terminar aqueles livros que há tanto já vinham cozinhando um pedaço do meu cérebro. E assim o fiz. Acordei às 5h da manhã. Virei fins de semana. Escrevi. E, no meio desse processo, outra editora me procurou. O resultado são esses livros lindos que vocês podem comprar neste link.

A lição que fica é: defina um prazo. E cumpra.

Prazos ajudam a colocar em prática a décima e mais importante das regras.

Regra 10: ligue o f***-se.

 

Um artista realmente sério nunca está satisfeito com a sua obra. É comum não nos orgulharmos tanto do que criamos em dias anteriores. Isso acontece porque estamos em constante evolução. Sempre aprendemos um pouco mais; todos os dias, acordamos um pouco diferentes. E é claro que isso causa um impacto no jeito como vemos nossa própria criação. Mas, vamos aos fatos: você precisa desapegar. Ainda não está incrível, podia ser um pouco melhor? Sim. Você precisa fazer outra coisa? Muito sim.

Você colocou sua alma no teclado, está sempre tentando aprender mais, não poupou seus personagens, se divertiu criando histórias paralelas, cuidou de cada frase com carinho, se esforçou para enxergar seu texto com outros olhos, relaxou, não relaxou…

É chegada a hora da última regra: deixe seu filho ganhar o mundo. Agora, não é mais com você. É a vez dos seus leitores trabalharem. Eles que pensem, discutam, criem suas próprias visões. Ninguém quer perfeição.

O que nós, seus leitores, queremos?

Você, de verdade, cheio de defeitos, no seu texto.

Este post foi ilustrado com as artes do Alex Solis , que reinventa personagens e com fotos do sketch book do José Naranja. 

Quer ganhar a versão e-book de OXZ e o Clã? Escorrega o cursor aqui.

Quer comprar toda a trilogia e receber em casa, autografada? Clica aqui. 

Quer conversar? Fala ae.

F!